OS TRADICIONAIS CORTE E COSTURA
MALHAR NO CABEDAL E
A CAMILHA
É curioso como muitas pessoas se desenraizaram e correram a agrilhoar-se aos preconceitos da vida de hoje.
Vi com espanto que alguns amigos e amigas surpreenderam-se e incomodaram-se com a minha alusão de que a presidente da câmara de Coimbra tivera um comportamento de "costureira de província" no seu número ofensivo para com o ministro da Agricultura.
Pois bem.
Não havia, como é óbvio, qualquer referência à profissão e muito menos a profissionais à sociedade de hoje. Até porque nem costureiras nem a profissão, nada disto existe. Foram substituídas por "estilistas" e já não circulam de casa em casa com a máquina de costura à cabeça.
Mas as funções estão todas aí. Mais sofisticadas, menos espalhafatosas mas muito mais viperinas e verrinosas. Mais perigosas!
Há muitos anos, o sapateiro de debaixo da escada era o Facebook, o barbeiro cumpria zelosamente a função do Twitter e a lavadeira do tanque da vila era muito mais fina na análise e perigosa no resultado do que a Instagram. E lembram-se do alfaiate? Haverá hoje algum TikTok que suporte tantas histórias, tantos amores e desamores quantos o alfaiate, com as suas costureiras e os clientes, rimavam num belo dia de chuva e trovoada? Já nem falo dos profissionais do boato e da cuscovilhice. Qual Expresso e qual Correio da Manhã ou Observador! Qual CNN e TVI, qual RTP ou SIC? Inventar e adaptar as histórias e atirá-las ao vento com a maior velocidade! Chegarão mesmo aos calcanhares das tias de boa fama que, à hora a que hoje se reúne a família para ver o telejornal, se empenhavam estoicamente a fazer notícia da vida alheia e a espalhar o "diz que disse", disciplinadamente sentadas à volta da Camilha, mansamente aquecida pela braseira a carvão? Não sei quantos golpes de estado fervilharam a partir dessas camilhas quentes mas sei que muitas vidas se esboroaram e outras progrediram a partir daquelas mesas redondas, autênticas redacções improvisadas, simples e de largo espectro mas confidenciais! Como as redacções dos jornais e TVs de hoje.
É bom não esquecer estas bibliotecas e enciclopédias da cultura de então. Até porque muita cultura de hoje nasceu ali, na loja do sapateiro e do barbeiro, no pedal da máquina de costura e na tertúlia que era o tanque de lavar a roupa da vila. Sem angústias nem maus juízos desapropriados; com orgulho no passado e fair play!

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